“Novo analfabetismo”? Que notícia é essa?



Esta semana fomos (re)apresentados ao conceito midiático de “novo analfabetismo” e isso nos trouxe uma curiosa inquietude. A notícia “‘Novo analfabetismo’: por que tantos alunos latino-americanos terminam ensino fundamental sem ler ou fazer contas” teve origem no site da BBC Brasil, e foi ampla e fielmente reproduzida em vários outros grandes veículos de comunicação: G1, Terra e Uol. Aproveitamos a onda dessa divulgação feita na imprensa brasileira para indagar um pouco sobre a qualidade da relação entre mídia e dados educacionais, especialmente quanto à coerência e transparência. Reunimos alguns pontos importantes dessa reflexão que tem o intuito de esclarecer melhor as dificuldades de verificação das informações baseadas em dados na imprensa brasileira e internacional.

Fato e notícia

Em 21 de setembro de 2017 o portal da UNESCO divulga a notícia “6 Out of 10 Children and Adolescents Are Not Learning a Minimum in Reading and Math” (“6 de 10 crianças e adolescentes não aprendem o mínimo em leitura e matemática”), dando ciência à comunidade internacional acerca de seu último estudo sobre a qualidade da educação em todo o mundo. Outra notícia, no mesmo dia, foi divulgado pelo site das Nações Unidas, o UN News Center, com o título: “More than half of children and youth worldwide ‘not learning‘” (Mais da metade das crianças e adolescentes no mundo inteiro ‘não aprendem’). O estudo ao qual as notícias faziam referência tem o título idêntico a essa última divulgação: “More Than One-Half of Children and Adolescents Are Not Learning Worldwide” (“Mais da metade das crianças e adolescente não estão aprendendo em todo o mundo“) e sua autoria é do UNESCO Institute for Statistics (UIS). Nele, é possível encontrar a preocupação com a avaliação da meta 4 dos “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para a Educação”:

4 – Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

As notícias e o estudo, além dos impressionantes números sobre a baixa qualidade da educação em diversas regiões do mundo, ainda ressaltam a inédita aferição de qualidade da educação em todo o mundo, usando métodos que buscaram avaliar o ensino fundamental em 160 países ou territórios.

Os canais de notícia e esse “novo analfabetismo”

Porém, o quê desse relatório interessou aos jornais? Consideramos como primeira notícia a divulgação feita no site da BBC Mundo, publicada em 28 de setembro (uma semana após a divulgação oficial do relatório) sob o título “Van a la escuela pero no aprenden: por qué más de la mitad de los adolescentes latinoamericanos culminan la secundaria sin saber leer bien” (Vão à escola mas não aprendem: por que mais da metadedos adolescente latino-americanos terminam o ensino fundamental sem saber ler bem). É intrigante perceber que um dos tópicos do artigo apresentava-se como “Novo analfabetismo”, forma pela qual a vesão em espanhol da BBC deu ênfase à fala de Silvia Montoya, diretora do UNESCO Institute for Statistics (UIS):

“Que haya niños que no tengan las competencias básicas cuando se trata de leer párrafos muy sencillos y extraer información de los mismos yo lo consideraría como una nueva definición de analfabetismo. En el mundo de hoy tener un nivel mínimo de alfabetización ya no es poder leer tu nombre y poder escribir algún hecho de la vida cotidiana”.

O termo “novo analfabetismo”, porém, não está presente na versão em inglês da divulgação do relatório feita pela BBC, já em 3 de outubro. Essa divulgação teve o título “‘In school, but learning nothing'” (Na escola, mas nada aprendem). A reportagem chama a atenção para uma questão nomeada como “schooling without learning” (escolarização sem aprendizagem) e se apoia em estudos do Banco Mundial sobre o problema do acesso sem qualidade. Além disso, dá especial lugar às causas do problema (What’s to blame?) e aos investimentos financeiros feitos ao redor do mundo para superar essa “learning crisis” (crise da aprendizagem).

Por aqui a notícia chegou através do site BBC Brasil após 20 dias do anúncio do relatório, e é onde, finalmente, encontramos a expressão “novo analfabetismo” com a maior relevância. A reportagem foi atualizada para o Brasil fazendo referência aos dados do site QEdu sobre os resultados da Prova Brasil e à produção da Base Nacional Comum Curricular como estratégias ligadas à superação dos desafios. Nos demais portais brasileiros como G1, Uol ou Terra o texto da BBC Brasil foi reproduzido sem qualquer tentativa de aprofundamento ou expansão da questão.

O problema com o “novo analfabetismo”

Apesar do importante impacto que a expressão deve causar no público em geral, o “novo analfabetismo”, curiosamente, não é novo. Sua aplicação foi até bem popularizada quando se referiu às dificuldades de inclusão digital. É possível encontrar essa expressão em muitas publicações diferentes, de artigos acadêmicos a notícias populares. Enumeramos algumas de suas aparições:

1. No texto “Mercantilização causa novo analfabetismo“, publicado no site Universia Brasil, encontramos a expressão sendo atribuída a Emir Sader em seu texto “O novo analfabetismo”, o qual não conseguimos encontrar na web;

2. Em 2010 o site da revista Carta Capital, em que também há referência ao texto de Emir Sader, uma reportagem era publicada com o título “A mídia e o novo analfabetismo“;

3. O conhecido filósofo Demerval Saviani, em 2011, usou a expressão em seu texto “Ciência e educação na sociedade contemporânea: desafios a partir da pedagogia histórico-crítica“:

E além do analfabetismo absoluto e do analfabetismo funcional com dados referentes a este último que vão de 7% na Suécia, 14% na Alemanha, 22% na Inglaterra e 75% no Brasil, já se fala hoje num “novo analfabetismo” caracterizado pelo excesso de informações que não podem ser adequadamente processadas.

Todas essas citações fazem referência a uma epécie de “alfabetização digital” e não mantém qualquer relação com as aprendizagens desenvolvidas no âmbito da língua portuguesa e matemática, em que as habilidades de leitura e cálculo são avaliadas. Quem pesquisar a expressão hoje, por exemplo, só encontrará fontes relacionadas a essa aplicação, o que tonrará muito difícil sua fundamentação acadêmico-científica no sentido apresentado pela cobertura jornalística.

Apesar de ter sido pronunciada pela própria diretora do instituto ligado à UNESCO em sua entrevista à BBC Mundo, a expressão “novo analfabetismo” não está presente no relatório e não há qualquer menção a ele nos noticiários de língua inglesa. Mesmo que, no Brasil, seu uso tenha servido apenas como um jogo de palavras próprio da imprensa não especializada, trazer à tona uma representação tão forte dos desafios brasileiros implica custo em tempo para explicar a diferença entre os vários tipos de analfabetismo que já circulam no meio acadêmico e fora dele.

Mas e os dados?

Pois é, não podemos nos esquecer deles. Até agora percebemos que a imprensa nacional e internacional se esforçou em levantar questionamento em torno de tópicos recorrentes. Todos os veículos de comunicação reproduziram os mesmos dados e chegaram as mesmas conclusões. Se quisermos ir mais longe não podemos esperar muito da cobertura jornalística, pois em nenhum dos sites há qualquer link para o relatório ou para o release lançado pela UNESCO. As reportagens também não usaram as tabelas, gráficos e mapas disponíveis. Trouxemos alguns exemplos do relatório para demonstrar a riqueza de seu conteúdo:

A ausência dos dados na grande imprensa brasileira pode não impressionar tanto quanto a falta de interesse dos canais especializados. Sites como o Todos pela Educação e UOL Educação apenas fizeram como as dezenas de outras páginas, replicaram o artigo publicado na BBC Brasil. Mesmo que reconheçamos que os dados do relatório não tenham sido tão atrativos ou que estejam em um contexto de difícil acesso para ser interpretados e aprofundados, a carência de referências, citações e links apontando para o próprio relatório parecem ser problemas comuns nesse tipo de cobertura. Mas a exposição rasa dos dados, o uso de expressões pouco embasadas e a generalização dos problemas e soluções também reforçam o cenário insólito da utilização eficiente das estatísticas educacionais no Brasil e no mundo.